GENÉTICA
É amplamente aceite que doenças como TDAH (Transtorno de deficiência de atenção e hiperactividade) são programadas geneticamente, assim como distúrbios como a esquizofrenia. A verdade é que é exactamente o oposto. Nada é programado geneticamente. Existem doenças raríssimas, muito poucas, representadas de forma muito dispersa na população, que são mesmo determinadas geneticamente. A maioria das doenças complexas talvez tenha uma predisposição com uma componente genético, mas predisposição não é o mesmo que predeterminação. Toda a pesquisa sobre as causas da doença no genoma, estava condenada ao fracasso, antes mesmo de alguém pensar nisto, porque a maior parte das doenças não é predeterminada geneticamente. Doenças cardíacas, cancro, derrames, reumatismo, doenças auto-imunes em geral, distúrbios mentais, vícios, nada disto é geneticamente determinado. Por exemplo, em cada cem mulheres com cancro de mama, apenas sete carregam os genes de cancro. Noventa e três, não. E de 100 mulheres que têm os genes, nem todas terão cancro. Genes não são apenas coisas que fazem com que nos comportemos de maneira específica, independentemente do ambiente. Os genes proporcionam-nos formas diferentes de reagir ao ambiente. E, na realidade, parece que algumas das primeiras influências na infância e o modo de criar os filhos, afectam a expressão genética, ligando e desligando diferentes genes, para mudar nossa linha de desenvolvimento, para uma que seja compatível com o tipo de mundo em que vivemos. Por exemplo, um estudo realizado em Montreal com vítimas de suicídio, verificou as autópsias dos cérebros dessas pessoas e, constatou-se que, se uma vítima de suicídio, geralmente jovens adultos, tivesse sofrido abusos, enquanto criança, esse abuso teria provocado uma mudança genética no cérebro, inexistente nos cérebros de pessoas que não sofreram abusos, Isso é um efeito epigenético. “Epi” significa “no topo de”. Portanto, influência epigenetica é o que acontece no ambiente e que activa ou desactiva certos genes.
Na Nova Zelândia, realizou-se um estudo, numa cidade chamada Dunedin, envolvendo alguns milhares de indivíduos, entre o nascimento e os 20 anos de idade. Eles descobriram que conseguiam identificar uma mutação genética, um gene anormal, que tinha alguma relação com a predisposição à violência, mas somente se o indivíduo também tivesse sido severamente abusado na infância. Por outras palavras, uma criança com este gene anormal não está mais propensa que as outras a ser violenta e, na realidade, elas tinham um índice de violência menor que o de pessoas com genes normais, desde que não sofressem abusos, na infância.
Portanto, o argumento genético é só um pretexto para ignorar os factores sociais económicos e políticos que estão por trás de muitos comportamentos problemáticos.
Zeitgeist Moving Forward – Gabor Maté, Richard Wilkinson, James Gilligan